A paisagem dos mercadores

Nos distritos de Sivagangai e Pudukottai, no estado de Tamil Nadu, estende-se uma rede de assentamentos que constitui um testemunho material da prosperidade de uma comunidade de comerciantes e financistas. Conhecida como Chettinad, a região abrange um território de 1.550 km², onde o planejamento urbano e a arquitetura residencial se entrelaçam com práticas agrícolas e com a gestão da água. A comunidade dos Natukottai Chettiars, que atingiu seu apogeu econômico no final do século XIX e início do século XX, deixou uma marca arquitetônica que combina tradições locais e influências globais.

A proposta de inscrição na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO, apresentada em 2014, identifica três conjuntos de aldeias que representam a essência desse patrimônio. Esses agrupamentos, que somam onze aldeias, são considerados um conjunto arquitetônico singular, reflexo do modo de vida da comunidade hindu tâmil Chettiar. A região tem uma rede histórica de 73 aldeias e 2 cidades; originalmente, 96 assentamentos foram planejados de acordo com os textos tradicionais de planejamento e ciclo de vida conhecidos como Maniyadi Sastram.

Estrutura urbana e planejamento do território

A organização espacial de Chettinad caracteriza-se por uma malha orientada nos eixos norte-sul e leste-oeste, que estrutura tanto as aldeias quanto os lotes residenciais. Esse traçado ortogonal, que combina a organização ocidental com a tradição tâmil, permite orientar as casas com precisão em relação aos pontos cardeais. As ruas principais seguem o eixo norte-sul, enquanto as secundárias se estendem de leste a oeste, criando uma malha urbana coerente que facilita a circulação e a gestão dos recursos.

Essa concepção de planejamento do uso do solo conecta os elementos urbanos à paisagem circundante. A localização das aldeias não é aleatória: segue uma lógica que integra agricultura, conservação da água e vida comunitária. O resultado é uma paisagem alternada de lagos ladeados por diques plantados com diversas espécies de árvores, terras agrícolas e florestas, incluindo antigos bosques sagrados. Essa configuração deu origem a uma área verde e atraente que, depois da temporada de monções, abriga aves migratórias nas proximidades do golfo de Mannar.

A arquitetura palaciana e suas influências

As residências dos Chettiars, construídas principalmente entre as décadas de 1850 e 1940, são conhecidas por seu caráter palaciano e escala monumental. Estima-se que a região tenha abrigado entre 10.000 e 15.000 dessas casas, um número que as torna singulares na Índia. A arquitetura evoluiu ao longo dessas décadas, incorporando pavilhões, salões e pátios adicionais para atividades comerciais, recepções e casamentos, o que conferiu maior ostentação às casas tradicionais.

A decoração e a construção dessas mansões exigiram a importação de materiais e a contratação de especialistas de várias partes do mundo. A teca vinha da Birmânia; a madeira de satin, do Ceilão; o mármore, da Itália e da Bélgica; e o ferro fundido e o aço, do Reino Unido e da Índia. As placas metálicas dos tetos chegavam da Grã-Bretanha, enquanto os ladrilhos eram importados de Bombaim, Japão, Alemanha, França e Inglaterra. Os candelabros vinham da Bélgica, França e Itália. Também foram trazidas habilidades específicas de diferentes regiões da Índia, como entalhe em madeira, afrescos e reboco de ovo, para executar os detalhes ornamentais.

Uma característica marcante dessa arquitetura é a presença de numerosas casas em estilo Art Déco, construídas principalmente nas décadas de 1930 e 1940. Esse estilo internacional foi integrado às aldeias de Chettinad, demonstrando a capacidade da comunidade de incorporar e adaptar tendências globais ao contexto local. A fachada monumental, muitas vezes realçada por vários níveis de balaustradas e pelo uso de colunatas duplas e loggias, foi concebida para exibir a riqueza do proprietário.

Gestão da água e adaptação climática

A localização de Chettinad numa região quente e semiárida exigiu uma resposta arquitetônica e paisagística centrada na gestão da água e na regulação térmica. O planejamento das aldeias e o projeto das casas levaram essas condições climáticas em conta desde o início. As casas são construídas em torno de um pátio central orientado de leste a oeste, que proporciona sombra, luz, frescor e ventilação natural. Esse pátio é o coração da residência e regula o microclima interno.

Os materiais de construção respondem às exigências do clima: paredes espessas de tijolo, reboco de cal, telhados com várias camadas de telhas de terracota e pisos de mármore e pedra são componentes essenciais. A inclinação dos telhados é fundamental para a coleta de água da chuva durante a temporada de monções. A água recolhida é usada na casa e para abastecer os poços; o excedente segue pelo sistema de drenagem da aldeia, alimentando tanques e lagoas de uso comum.

O sistema hídrico de Chettinad é composto por duas redes interligadas. A primeira fica dentro das aldeias e compreende drenagens e tanques (ou ooranis). A segunda é formada por erys (ou Kanmois), reservatórios tradicionais de armazenamento de água superficial distribuídos pelo campo ao redor das aldeias. Os Chettiars realizaram importantes obras de terraplenagem para gerir a coleta de água da chuva, desenvolvendo e aprimorando em grande escala as técnicas tradicionais de gestão hídrica de Tamil Nadu. Essa infraestrutura não só atendeu às necessidades domésticas e agrícolas, como também contribuiu para criar uma paisagem biodiversa e sustentável.

Espaços rituais e vida comunitária

A arquitetura de Chettinad está estreitamente ligada aos rituais do ciclo de vida e às tradições vivas da comunidade Chettiar. As mansões foram concebidas para acolher diferentes funções, rituais e celebrações familiares ao longo da vida, do nascimento à morte. O pátio principal é considerado a parte central da casa, onde ocorrem os rituais; ele funciona como um santuário no qual os sacerdotes principais de um dos nove templos de clã celebram os eventos. Cada espaço da casa foi planejado tanto para as atividades cotidianas quanto para acolher rituais em ocasiões específicas.

A área da cozinha tem especial importância na casa Chettiar, pois, nas ocasiões festivas, eram contratados muitos cozinheiros. Assim, os Chettiars desenvolveram uma culinária sofisticada, que incorpora receitas do sul da Índia e dos países onde estabeleceram seus negócios, criando uma fusão original e refinada. Além das tradições ligadas ao ciclo de vida, as festividades dos templos e das aldeias fazem parte da cultura Chettiar e compõem um amplo conjunto de rituais ao longo do ano tâmil.

Há uma importante indústria artesanal local que produz elementos arquitetônicos e decorativos refinados, como ladrilhos e entalhes em madeira, além de objetos rituais, como figuras de bronze, e presentes de casamento, como sáris, cestaria e joias. Esse artesanato atende a necessidades decorativas e rituais, sustenta a economia local e preserva técnicas tradicionais de construção e design.

Os conjuntos propostos para o Patrimônio Mundial

A proposta de candidatura apresentada pela Índia inclui três séries de aldeias que, em conjunto, contribuem para o valor universal excepcional. O primeiro agrupamento, no distrito de Sivagangai, compreende quatro aldeias: Kanadukathan, Pallathur, Kottaiyur e Kothamangalam. Essas aldeias, vizinhas ao Palácio do Raja, são o ponto de partida de um itinerário cultural baseado no conhecimento da região. Kottaiyur foi selecionada especificamente porque seu assentamento tradicional está exposto à expansão urbana de Karaikudi, sua vizinha e centro econômico da região.

O segundo agrupamento, ao sul do primeiro, abrange as quatro áreas Chettiar de Karaikudi e as aldeias rurais de Kandanur, Athangudi e Chokalingampudur, também no distrito de Sivagangai. O terceiro fica ao norte do primeiro, no distrito de Pudukottai, e inclui as aldeias de grande importância Rayavaram, Kadiapatti e Arimalam. Esses conjuntos representam uma parte significativa do território de Chettinad e demonstram a coerência do modelo de assentamento em diferentes zonas geográficas.

Autenticidade e continuidade do patrimônio

Apesar da perda de algumas casas Chettiar, permanecem partes significativas do tecido urbano tradicional e das mansões, o que permite sustentar a autenticidade e a integridade do sítio. A trilha Chettinad, em Tamil Nadu, delineia o mapeamento geral e o inventário da região. Estudos realizados por universidades da Índia e da Europa atestam o caráter original do planejamento urbano e das características arquitetônicas. Os estudos desenvolvidos no âmbito do Projeto Revive Chettinad Heritage destacaram a evolução do assentamento Chettiar de 1850 a 1945.

A autenticidade da forma e do projeto é respaldada pela permanência dos espaços e de seus usos ao longo da evolução, das casas da década de 1860 ao Art Déco tardio. A autenticidade dos materiais e da substância está refletida num importante inventário de materiais, que registra sua diversidade, suas várias origens na Índia e no exterior e suas datas de fabricação, da década de 1860 à de 1940. A autenticidade do uso e da função se mantém por meio da prática contínua dos rituais do ciclo de vida nas casas ancestrais, preservando tanto o patrimônio construído quanto o patrimônio vivo. As casas Chettiar foram construídas segundo regras tradicionais de organização espacial por mestres construtores que ergueram os templos dravídicos da região, os stapathis, assegurando a continuidade das técnicas e dos sistemas de gestão.

A ficha em resumo

Âmbito

Leitura editorial; não constitui uma visita nem uma avaliação técnica.

Fontes

Chettinad, Village Clusters of the Tamil Merchants - UNESCO World Heritage Centre ↗24/10/2026

India - UNESCO World Heritage Convention ↗24/10/2026

UNESCO World Heritage Centre - Tentative Lists ↗24/10/2026