O último testemunho material de uma civilização

Na região de Asante, perto de Kumasi, no centro de Gana, um conjunto de edifícios tradicionais é um dos últimos testemunhos materiais da civilização Asante, cujo apogeu ocorreu no século XVIII. Essas construções não são apenas abrigos: seus espaços, materiais e relevos preservam aspectos de uma tradição arquitetônica associada ao poder e à riqueza do Reino Asante entre o fim do século XVIII e o fim do século XIX.

O conjunto foi inscrito na Lista do Patrimônio Mundial em 1980, pelo critério (v), que reconhece o valor dos edifícios como testemunho remanescente de um estilo arquitetônico próprio. A decoração em baixo-relevo tem papel central nessa importância: seus motivos não são apenas ornamentais, mas carregam significados simbólicos.

O conjunto reúne dez santuários, também descritos como casas de fetiches, distribuídos por diferentes aldeias próximas a Kumasi. A maioria fica a nordeste da cidade; Patakro está ao sul. Juntos, esses lugares permitem compreender a relação entre técnica construtiva, prática religiosa e identidade cultural Asante.

Os dez santuários

Os edifícios identificados no conjunto são:

  1. Abirim
  2. Asawase
  3. Asenemaso
  4. Bodwease
  5. Ejisu Besease
  6. Adarko Jachie
  7. Edwenase
  8. Kentinkrono
  9. Patakro
  10. Saaman

Cada santuário integra a paisagem cultural da região e mantém uma função que vai além da preservação de uma forma arquitetônica histórica.

Materiais, estrutura e vulnerabilidade climática

Os edifícios se organizam em torno de pátios e foram construídos com madeira, bambu e barro estucado. Originalmente, tinham coberturas de palha. A combinação de terra, madeira e fibras vegetais responde a uma tradição construtiva local, mas também torna as estruturas sensíveis ao tempo e às condições ambientais.

O clima tropical quente e úmido acelera a deterioração das construções de terra e da técnica de taipa e barro sobre estrutura de trama. Chuvas intensas e alta umidade favorecem a formação rápida de mofo nas paredes. Cupins e outros insetos destrutivos também contribuem para a degradação. Ao mesmo tempo, a intensificação das atividades agrícolas dificulta o acesso a materiais tradicionais, como palha, bambu e determinadas espécies de madeira. Isso afeta não só a manutenção cotidiana, mas também a possibilidade de realizar reparos com materiais compatíveis com a construção original.

Conservação e autenticidade

A forma arquitetônica e os materiais tradicionais ainda são reconhecíveis, embora muitos edifícios tenham passado por reconstruções extensas e poucas estruturas permaneçam completas. Em 12 dos 13 edifícios documentados, as coberturas originais de palha de palmeira, com inclinação acentuada, foram substituídas por telhas metálicas corrugadas, mais leves e com menor inclinação. Em todos os edifícios, o piso de terra batida foi substituído por pavimentação mais durável.

Essas mudanças evidenciam uma tensão prática: proteger as estruturas contra a deterioração pode exigir intervenções que alteram sua materialidade. A manutenção de longo prazo precisa conciliar a resposta ao clima úmido com a conservação das formas e técnicas que dão aos edifícios sua identidade arquitetônica. Também depende de assegurar uma oferta suficiente de materiais orgânicos para reparos futuros.

Relevos e símbolos Adinkra

As fachadas apresentam baixos-relevos marcantes e variados. Entre os motivos aparecem espirais, arabescos e representações de animais, aves e plantas, associados aos símbolos tradicionais Adinkra. A decoração constitui uma linguagem visual: os desenhos transmitem ideias e crenças, em vez de servirem apenas como acabamento das paredes.

A tradição Asante transmitiu conhecimentos culturais por meio de símbolos Adinkra talhados em espaços sagrados, em vez de depender exclusivamente de textos escritos em escrituras sagradas. Os motivos têm significados simbólicos e filosóficos e foram transmitidos entre gerações. Assim, a arquitetura reúne estrutura e comunicação: os materiais definem o espaço construído, enquanto os relevos expressam valores e concepções de mundo.

Espaços de uso ritual

A religião tradicional continua a ser praticada nos santuários. As consultas às divindades buscam orientação para situações específicas ou antes de iniciativas importantes. Esse uso ajuda a explicar por que os espaços foram mantidos com seus elementos simbólicos: eles não são apenas vestígios de uma prática passada, mas lugares onde a vida religiosa continua a moldar a função arquitetônica.

A preservação, nesse contexto, não se limita à conservação de paredes e coberturas. Também envolve manter as condições para que o sentido cultural e ritual dos espaços permaneça inteligível e relevante para as comunidades. O patrimônio material e a prática viva estão ligados, embora os desafios de conservação física — especialmente a umidade, os insetos e a disponibilidade de materiais — permaneçam significativos.

Proteção e transmissão do conhecimento

A proteção dos edifícios opera por meio de dois sistemas complementares. De um lado, há regras, proibições e penalidades consuetudinárias transmitidas entre gerações e integradas às crenças e à visão de mundo das comunidades. De outro, há normas legais promulgadas pelo governo, que definem o papel da Junta de Museus e Monumentos de Gana (GMMB).

Entre 1960 e 1970, os edifícios foram adquiridos pela GMMB e designados Monumento Nacional. A conservação e o planejamento de intervenções envolvem as autoridades tradicionais, o conselho local, integrantes da comunidade e a Universidade de Ciência e Tecnologia Kwame Nkrumah (KNUST). Essa participação articula a gestão institucional com o conhecimento e as responsabilidades locais.

A transmissão de conhecimentos sobre a arquitetura vernácula também faz parte da conservação. Em 1997, uma missão constatou que obras importantes de restauração realizadas na década de 1960 não haviam sido acompanhadas por pesquisa científica documentada. A constatação levou à aprovação de assistência internacional para um levantamento rápido do estado dos sítios e a atividades de formação. Artesãos locais e trabalhadores das aldeias participaram de uma oficina; em seguida, foram organizadas oficinas semelhantes em outros seis locais.

Em 2021, uma edição revista e ampliada da publicação Asante Traditional Buildings, originalmente publicada em 1999, voltou a disponibilizar documentação sobre a arquitetura, as técnicas construtivas e a simbologia dos edifícios. Preparada no âmbito do Projeto Sankofa, a edição busca fortalecer as competências de profissionais do patrimônio e apoiar o desenvolvimento do turismo patrimonial sustentável. Inclui novos prefácios e um epílogo com informações posteriores à edição anterior, e está disponível gratuitamente on-line.

Recursos para observação e estudo

Recurso O que oferece Link
Lista do Patrimônio Mundial Informações sobre a inscrição, os critérios e a conservação do conjunto. Edifícios Tradicionais Asante
Projeto de documentação Contexto sobre a arquitetura vernácula, sua transmissão e o Projeto Sankofa. Documentação da arquitetura tradicional Asante
Galeria de imagens Fotografias dos edifícios, com créditos aos fotógrafos. Galeria dos Edifícios Tradicionais Asante

Observar esses espaços é uma maneira de perceber como a arquitetura pode preservar identidade cultural, transmitir valores por meio de formas visuais e responder — com limitações e adaptações — às condições ambientais. A documentação disponível também permite acompanhar a relação entre conservação material, formação de profissionais e continuidade de usos comunitários.

A ficha em resumo

Âmbito

Leitura editorial; não constitui uma visita nem uma avaliação técnica.

Fontes

Asante Traditional Buildings ↗21/10/2026 UNESCO World Heritage Centre. “Asante Traditional Buildings”.

Transmitting and documenting the vernacular architecture of the Asante Traditional Buildings (Ghana) ↗21/10/2026 UNESCO World Heritage Centre. “Transmitting and documenting the vernacular architecture of the Asante Traditional Buildings (Ghana)”.

Asante Traditional Buildings ↗23/10/2026 UNESCO World Heritage Centre. “Asante Traditional Buildings Gallery”.